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Você sabia, que a Amazônia é um ambiente antropizados, pelos nossos ancestrais?

Por Karina Tajyputir Tupinambá - Karina Borges Cordovil


Fausto (2000, 10) menciona novas pesquisas, em especial no Brasil, que alteram a imagem de como os povos tradicionais das Terras Baixas eram apontados em trabalhos de forma estanques: “os índios do Brasil foram logo caracterizados como gente sem religião, sem justiça e sem estado”.


Na década de 1960, a teoria do determinismo ecológico ganhou espaço na literatura arqueológica no Brasil, afirmando que o meio ambiente determinava a permanência e a fixação ou não de povos em dada região do espaço amazônico. Betty Meggers (1970), afirmava que o meio ambiente amazônico era inóspito à sobrevivência de extensos grupos humanos, já que o solo, nesta perspectiva, seria pobre e incapaz de formar grupos com sistemas sociais complexos, ou seja, acreditava-se que o potencial agrícola amazônico era reduzido.


Neste sentido, de acordo com a teoria do determinismo ecológico, o ambiente amazônico teria limitado o desenvolvimento de grupos complexos e as características ambientais deste ecossistema impossibilitariam outras culturas de subsistência.

Pesquisas posteriores refutaram o pensamento do determinismo ecológico. Roosevelt (1991) observou possíveis formações complexas de povos indígenas na Amazônia a partir de vestígios bióticos e abióticos populacionais encrustados nos solos. Essa concepção oportunizou a gradativa sedentarização e agricultura de povos na Amazônia.

 Sob esse mesmo prisma, Neves (2000) afirma que:

 

É provável então que os primeiros habitantes da Amazônia – pequenas comunidades de caçadores coletores – tivessem utilizado o meio ambiente bastante diferente do atual. Com o aumento da temperatura e a expansão das florestas no Holoceno populações de pescadores-caçadores que também já produziam cerâmica estavam há mais de 7 mil anos estabelecidos em comunidades sedentárias ao longo dos rios. Embora não haja evidências de que essas populações fossem agricultoras, é plausível que elas praticassem algum tipo de manejo de plantas que eventualmente, ao longo de centenas de anos, se desenvolveu em termos de um sistema agrícola baseado no cultivo de raízes, como a mandioca. Tal sistema, aprimorado durante milênios, é ainda hoje utilizado pelas populações indígenas da Amazônia. (NEVES, 2000, p. 365-366).

 

O texto acima indica que o manejo do solo amazônico viabilizou a vida, permanência e a perpetuação das populações neste território. Há, neste sentido e em termos acadêmicos, uma quebra de paradigma, no qual existe a indicação de que o homem pode determinar sua permanência em uma paisagem, podendo se adequar às condições ambientais amazônicas. A existência desse tipo de solo na região amazônica enriqueceu e contribuiu para a paisagem de sistemas florestais, presentes, nos dias atuais, no espaço amazônico, conforme indicaram as pesquisas realizadas pós década de 70 na Amazônia.

As mudanças foram progressivas e operantes a partir da década de 1970, com pesquisas que sinalizaram outras perspectivas de continuidade cultural entre os povos do presente e do passado, estudos de Anna Rosevelt (1980) sobre os povos pré-conquista na Ilha do Marajó e Santarém, tem indicações de que estes dois lugares, foram encontrados uma diversidade de materiais cerâmicos, policromados, de vários tamanhos e usos, foram identificados materiais cerâmicos sofisticados, além do teso marajoara – elevações terra que indicaram de ocupações habitacionais (FAUSTO, 2000, 27).


Essas descobertas só foram possíveis a partir da realização de pesquisas de cunho interdisciplinar. A ênfase ao trabalho de Roosevelt (1980) na Amazônia, de forma a apontar que, embora os povos indígenas vivam em ambientes há muito tempo considerados pobres e inférteis com passar do tempo houve a mobilização destes, isso permitiu a permanência através de processos antrópicos no ambienta amazônico.


São modificações que possibilitaram aos grupos etnicamente diferenciados viverem em espaços, alterando a paisagem e garantindo sua soberania alimentar, visto que o território está estreitamente ligado a segurança da alimentação do grupo. Além disso, o modelo de cacicado, trazido como modelo de chefe atura para Brasil, não coaduna com o outras perspectivas de lideranças até então.


Neste sentido, verifica-se que os povos amazônicos contribuem de forma satisfatória na mudança de paradigma em relação ao determinismo ecológico, passando a alterar seu ambiente natural, fixando-se em determinados lugares. Os grupos passaram a ter papel fundamental nesta mudança, de forma a garantir sua alimentação. Deste modo, a agricultura tem relevância na garantia de uma alimentação dos povos da floresta, permitindo-lhes fixação por mais tempo em ambientes antes considerados inóspitos, ocorrendo a sedentarização e a fomentação da agricultura ampla e diversificada, um verdadeiro mosaico florestal amazônico.


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Referência Bibliográfica:

CARNEIRO, Robert L.. A BASE ECOLÓGICA DOS CACICADOS AMAZÔNICOS. Tradução para o português de Denise Pahl Schaan do manuscrito inédito: “The Ecological Basis of Amazonian Chiefdoms” (s.d.). Publicado na Revista de Arqueologia, Vol. 20, Setembro de 2007.

FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. 4ª Ed. Edição. Zahar. 2010.

MEGGERS, B. J. e EVANS, C. 1957. Archaeological Investigations at the Mouth of the Amazon. Bureau of American Ethnology Bulletin, vol. 167, Washington, D.C., Government  Printing Office.

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